Velocidade, solidão e poesia

Num fragmento de: “ORAÇÃO PELO POEMA”, o poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo, considerado como um dos maiores da língua portuguesa, nos fala: “a cem quilômetros por hora/solto a direção do automóvel/para escrever alguma coisa/mais urgente que minha vida”.

Nesse instante do poema - o poeta desiste da vida ou corre o risco de perdê-la, por dois motivos aparentes: para não perder o verso que o atravessa ou porque foge da angústia da solidão que o entorpece. Aos “cem quilômetros por hora” nega a própria existência, se esta não for pela poesia que o persegue - sombra e mito da saga de nascer poeta.

É na solidão e na velocidade das ocorrências das coisas da vida que a poesia eclode e quebra a casca do ovo que a aprisiona. Sobressaltado, o poeta se coloca a serviço da gestação precipitada do seu animalesco simbólico: malcriado, dono de suas verdades. Assim acontece em “NASCE O POEMA”, de Ferreira Gullar: “e a poesia irrompe/donde menos se espera/às vezes/cheirando a flor/às vezes/desatada no olor/da fruta podre/que no podre se abisma”.

Há sempre, na gestação da poesia, a condição prematura do vir a ser no mundo - seu gesto ditatorial. Urgência e razão se contextualizam no momento onde acontece a quebra da castidade do papel e a poesia materializa-se como SER, para matar a fome do mundo, criando uma personalidade. O poeta simplesmente dedica-se à dor do parto e apara sua sangria, qual o Édipo, que olha sua cria no seu momento mais delicado - mas o reconstrói para soltá-lo no mundo.

Nas suas mais variadas formas de expressão, a poesia reclama seu momento único para nascer dentro da solidão: “dentro do carro/ sobre o trevo /a cem por hora, ó meu amor/só tens agora os carinhos do motor” – assim Belchior precipita-se para um abismo que o atrai. Nesta busca de um infinito que demora a chegar, há algo que se perdeu na profusão da velocidade e dos afetos, onde o tempo corrói os amantes, deixando a solidão como o momento necessário para nascer, desobedecendo à ordenação de um mundo mecânico.

Casada com a música, a poesia assume outra identidade: “Vou cavalgar por toda a noite/numa estrada colorida/usar teus beijos como açoites/e a minha mão mais atrevida”, nesta canção de Roberto Carlos, além de outras, de tantas velocidades e estradas, a poesia nos leva à uma procura suicida pelo amor através de versos que requerem a supressão das horas, como condição de se vencer a dicotomia espaço/tempo, onde o amor dorme descansado. E sonhamos.

A poesia vence o poeta e a barreira do tempo porque não obedece fronteiras, nem os limites do humano, possibilitando-nos viajar em suas naves/metáforas, para além do arco espaço/tempo, concedendo-nos a possibilidade de viver, mesmo assim, com os pés no chão. Parafraseando o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, a “ave/bala” encontrará seu destino certo porque sempre haverá um verso perdido a nos espreitar entre os postigos do tempo.

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