SOLO DE VIALEJO E OUTRAS PARADAS

Atualizado: Mar 22

O meu primeiro encontro com a poeta Cida Pedrosa, aconteceu num transatlântico - uma viagem entre a França e o Brasil – fato ocorrido através das mãos do poeta Jaci Bezerra quando me presenteou com o livro (Nantes Recife: Um Olhar Transatlântico), tratava-se de uma coletânea de poemas e, lá estava Cida juntamente com poetas franceses. Esta foi uma grande viagem.

Isso se deu lá pelo ano de 2010, quando tratávamos da edição do meu livro - Abril Sitiado, publicado pela Bagaço no ano de 2011. Os poemas de Cida me impressionaram de tal forma, que aproveitei a ocasião e enxertei um poema escrito às pressas intitulado: Entre o rio e o mar, fruto da pujança da poética de Cida e de uma inquietação - não conhecer a poeta, mesmo morando na mesma cidade.

O poema fala sobre esse tempo de desconhecimento e do alumbramento: em que mundo habitava, que não a conhecia, nem sua bela poesia? Me perguntava através dos versos do poema marginal!

Agora embarco em outra viagem, com Cida – Solo para Vialejo – livro vencedor do prêmio Jabuti 2020 e também como o livro do ano. Com este livro Cida rompe outra barreira, o último Jabuti trazido para o estado foi no ano de 2003, através do poeta Marcus Accioly, pelo livro Latinomérica, se minha pesquisa estiver correta.

Solo para Vialejo é um belo projeto editorial, que emoldura uma viagem transcendental do sertão ao litoral, repleta de imagens, sons e cheiro. O livro dialoga com o leitor o tempo inteiro e o convida para um grande passeio, a meu ver uma “Morte e Vida Severina” pós-moderna, embalada pela cultura hippie - da paz e do amor, dos solos das guitarras, das gaitas e de Marcuse – porém, sem perder em sua dramaticidade a aridez da secura do sertão e dos sonhos brotados na flor do algodoeiro, onde foi escrita a história de tantos que sonharam com dias diferentes.

Nele se mesclam Beatles, Rolling Stones, Jackson do Pandeiro, Humberto Teixeira, Etta James, trechos da carta a El-Rei Dom Manuel, Luiz Gonzaga, Roberto Carlos, Valdick Soriano, entre outros.

Tais referências flertam com a capacidade semiótica da poeta para o preparo de uma sopa de letras para chegar ao litoral: “uma mulher que fia/ fia armaduras para sóis tristes/ fia o acalanto para madrugadas rasas/ fia o orvalho para manhãs natimortas/ fia fia fia/ a rede que amparará o sono/ do filho tecido no ventre”.

Assim segue a viagem no novelo azul da solidão, fecundada na pedra quente do sertão: “...sei bem porque sei de ti/ tanto algodão na minha vida/ a balança pesava a safra que se ia no caminhão/ rumo à usina/ o saldo era a possibilidade de partir/ ....de cruzar a chapada em direção ao mar.”

Hoje além de chegar ao litoral, Cida ultrapassa fronteiras estaduais, toma conta do país, mostrando sua face e sua poesia urdida entre pedras, leitos secos de rio e pelas mãos da parteira: “quase todos filhos de Bodocó vieram pelas mãos de mãe hermínia/... as mãos de mãe hermínia/ e o som das suas teclas nem sempre afinadas/ foram/ minha primeira experiência com deus/ ao ouvi-la dedilhar a ave maria de Schubert meu coração se apertava e ficava com medo perder minha mãe...”.

Essa luta corporal e poética entre signos e sol sedimenta toda uma trilha, para a voz da poeta ultrapassar os desmantelos de um destino, o qual ela foi escolhida e que não sonhou, mas fecundou um processo rico de cores e formas que dão o exato pigmento para a confecção de seus versos, só para não deixar passar seus dias em branco; nenhuma página ficará em branco, nenhuma alma se perderá no pranto da saudade daquilo que ficou para trás nesta viagem. O lamento do solo do vialejo anunciará um novo dia. Salve Cida, salve todos os caminhos, que nos livram da solidão.

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