RIGIDEZ E MOVIMENTO NO SEGUNDO LIVRO DOS SONETOS DE JOSÉ LUIZ MELO

Os ossos sustentam nosso esqueleto e este nosso corpo, se não fosse dessa forma seríamos apenas uma massa disforme a se arrastar pelo chão. Assim é o soneto para a poesia – sustentação - que lhe dá forma, identidade e conteúdo.

O soneto é um tipo de poema que significa: “pequeno som, canto ou melodia”, tem como estrutura, regras fixas: rimas, métrica e a organização de suas estrofes. Sua origem, dizem alguns estudiosos vem da Itália, França e Inglaterra, nesta, William Shakespeare foi seu maior divulgador, escreveu cerca de 160 sonetos. Por possuir melodia, alguns estudiosos afirmam que sua origem vem da performance dos trovadores medievais.

No Brasil grandes poetas escreveram sonetos, como podemos citar alguns nomes: Vinícius de Moraes, Olavo Bilac e Carlos Pena Filho, nosso grande sonetista que plantou sementes em nossa cidade, gerando nomes como: Jaci Bezerra e José Luiz Melo, só para citar nomes da geração 65.

Em seu: “Segundo Livro dos Sonetos - os penúltimos”. Zé Luiz segue na sua saga para completar uma trilogia de sonetos, que se misturam com alguns escritos de sua juventude, outros rascunhados no caminho da maturidade, que poeta nenhum consegue alcançar, isto me referindo não à sua idade cronológica, mas ao fazer literário, que nunca se dá por vencido.

Engraçado que José Luiz Melo é médico ortopedista e sonetista de profissão, as duas coisas se mesclam e se fundem num processo de evolução dos dois afazeres: ossos para o reino animal e versos metrificados para a poesia, bases que os tornam vivos e pulsantes. Parece que a vida impôs à José Luiz a missão de estar sempre ativo na estrutura das coisas, nem que fosse engenheiro! Segue alguns sonetos escolhidos:


RETRATO DA MINHA MÃE

“eu retiro o retrato da ossatura”


Este rosto que eu vejo no retrato

aprisionado, dentro da moldura,

da parede me fita estupefato,

quando lhe conto as minhas travessuras.


É tão real que sinto o seu olfato

me envolver, como um halo de ternura;

também ouço o sussurro de um regato,

que vem da máquina onde inda costura.


É tão vivo e abstrato ao mesmo tempo,

que medroso que ocorra um contratempo,

eu retiro o retrato da ossatura


do molde que o asfixia na parede,

pois pede que lhe mate a sua sede,

com olhos marejados de tristura.


MANGAS E PITANGAS

“com bicos trauteando um sustenido”


As duas ondas vagam num vestido

de um fustãozinho, fino e delicado,

galopam, em um trote divertido,

enquanto espio e fico fascinado.


Ou são romãs, debaixo do tecido

de organdi, que transpira emocionado,

com bicos trauteando um sustenido,

num triste coração desafinado.


Não sei como dizer, mas, maravilha,

pusesse as mãos nas conchas dessas quilhas

redondas, que ressoam no divã.


Tendo nos lábios, presas pitangas,

saboreando a carne destas mangas,

beber nas taças do seu sutiã.


VERSO

“quero um verso com tripas e com cheiro”


Em mim, a onda de melancolia

me embrulha o contingente num lençol,

feito da mais vulgar mercadoria,

que me arranha e inflama o meu terçol.


Mas, sei não ser verdade. Ideologia

me engana à realidade. – Um guarda-sol

que eu abro quando a lua me extasia,

e fecho quando do nascer do sol.


Não quero um verso limpo que pareça

aquilo que sou, nem tenho pressa,

ganância à presa, como um cão sabujo.


Quero um verso com tripas e com cheiro,

estrondo, que se escute o seu berreiro,

humano e verdadeiro: - Um verso sujo!

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