POSTAL POÉTICO DO RECIFE

Atualizado: 24 de Abr de 2019

A cidade do Recife sempre foi berço e palco para grandes poetas, poesia faz parte das ruas e de suas pontes, explode no sol que invade suas avenidas, praias e rios.

Aqui segue uma pequena amostra de poemas escritos nestes trinta e poucos anos de minha poesia, como forma de agradecimento:


CRÔNICA DA TERRA


Recife

canto-te em três tempos:

Re – um sentido prático

ci – da sífilis transmutadas

fe – das beatas rezadeiras.

Durante o dia

me queimo no teu sol

corando minha alma negra.

E, à noite,

observo teus telhados desbotados

de onde olho o mundo.



GUERRILHA URBANA

À praça Joaquim Nabuco


As praças públicas

estão repletas de pessoas

imóveis. O tempo não corre

pelas praças. Invólucros

revolucionários, quebrando a disciplina

das cidades.

Nos bancos das praças, homens

sonham, se exilam, se defendem

do tempo, dos relógios que corroem

os transeuntes. Os homens

sentados

não ouvem as sirenes, das fábricas:

são histéricas, eles estéreis

à agonia, se rebelam

contra o roubo do tempo

dos relógios de ponto. Os homens

imóveis

hibernam nas praças.



CANTIGA AO CAPIBARIBE


Sonhou-se um dia:

sobre tua pele, naves deslizariam

e ao trabalho te darias:

carne para os pobres - lazer

para os ricos flamejantes - espigões

em tua periferia brotariam

e em cada janela, corpos nus cantariam:

- Muitos homens como chão, te sonharam.

Outros, qual amante

resgatariam sonhos de feudo

e se transbordariam do teu efêmero líquido

e durante a noite, no teu canto

úmido, acalentarias a sede das sedes

com panos mornos, sobre a cidade ofegante.

Hoje à pátina, nesta tela:

a libido proibida, contraído sexo

para não morrer, recusa

a escusa do limbo escaldo dos engenhos

que movem os homens da cana-de-açúcar:

em teus pulmões de espuma

a viagem intransitável em teu ser.



PARALELO OITO


No teu dorso de cidade – a giz

traço no meu caderno tuas rotas

até onde o medo me cabe:

inventário de sombras – pátio aberto

sobre o rio mocambos parasitários

à flor de tua pele

a fé de um deus seu povo viça:

pacífico e atlântico azul

o leste desatado – o sol e o mar

trago do tempo: areia e sal

de teus mapas

a solidão de minhas ilhas.



RECIFE ENCHARCADA


Num abril

Recife acordou encharcada:

dos coturnos, sobraram acácias amareladas

e os verdes das bílis embriagadas:

olhos embotados de vermelho

correram becos e vielas

dissecaram veias e artérias

naquela madrugada. Etérea

Recife foi sufocada.



UMA CIDADE DORME PRESERVADA


Em teu leito

desejo e barro, tecem homens

nas tuas entranhas de cidade

cantam sereias

cirandas, na areia pensa do teu mar:

sonhadores de ondas e estrelas

nos teus sargaços vem afogar

pontes, braços e veias:

no teu sangue áspero

por séculos, abissal.


22 visualizações

PERGUNTAS?

DESEJA UM ORÇAMENTO? QUEREMOS AJUDAR

  • Facebook
  • Instagram

Tel: (81) 98539-9015

Endereço: Rua Desembargador João Paes, 446 - Boa Viagem, Recife

CNPJ: 19.096.597/0001-48

© 2023 por Frederico Spencer.

Tel: (81) 98539-9015