POETA, SE NÃO SUAR - NÃO SOA

“Poema nenhum, nunca mais, será um acontecimento: escrevemos cada vez mais para um mundo cada vez menos”.
Alberto da Cunha Melo

O poeta Alberto da Cunha Melo, escreveu uma crônica intitulada: “O Suor do Poeta”, está no livro MARCO ZERO, publicado pela CEPE Editora. Nesta crônica um dos pontos abordados pelo poeta, e que aqui se faz nosso foco, trata sobre o que se pode ou não chamar de poesia: “No Brasil, os autores de livros didáticos transcrevem letras de música popular e citam os autores como poetas, ao lado de grandes nomes da poesia brasileira e portuguesa, e até astros do show-business se sentem honrados ao ser chamados de poetas” – desta forma o nosso poeta/cronista desfere o golpe. E vai mais além: “a poesia atomizou-se em variadas tendências, até o ponto de não haver mais nenhuma poética universal que sirva de parâmetro, como a grega serviu para a poética latino-horaciana e esta para o classicismo europeu”.

Assistimos ainda hoje uma discussão sobre se devemos ou não empregar técnicas no fazer literário - aquelas que são intrínsecas ao trabalho laboral - não só para o escritor como também para os demais produtores de outras expressões artísticas e que referendam o conceito das artes em geral.

Nos atendo principalmente naquilo que se refere à poesia que se popularizou - e aqui falamos no sentido da quantidade de pessoas que se sentam num lugar tranquilo para transferir para o papel aquilo que trazem em seus sentimentos, nos seus espíritos - os versos correm ladeira abaixo, sem nenhuma preocupação com sua forma conceitual.

A semana de arte de 1922 afrouxou os laços que nos ligavam ao classicismo europeu e nos fez pensar numa produção de arte ligada à nossa cultura, às nossas dores e angústias, forjando um sentimento de nacionalidade a partir do livre pensar. Para tanto, tivemos que construir o nosso método de criação artística, nosso caldo cultural, incorporando nosso jeito de fazer as coisas às formas e conceitos universais de arte.

No que se refere à poesia, passamos por várias escolas, cada uma com seu método, seu conceito próprio que determinava seu modelo e forma de expressão, todas elas ligadas a um tempo histórico. Até que chegamos à desfragmentação do verso, libertando-o das amarras das escolas literárias, em prol de uma liberdade de expressão em função de sua popularização, tanto no sentido de sua produção quanto da percepção de seu conteúdo.

Voltando à leitura da crônica, o poeta nos leva ao pensamento de João Cabral de Melo Neto opinando sobre o que é poesia: “a exploração da materialidade das palavras e das possibilidades de organização de estruturas verbais”. Mais à frente vamos encontrar o pensamento de Manuel Bandeira: “o verso livre deu a todo mundo a ilusão de que uma série de linhas desiguais é poema”. E ainda faz uma referência à T. S. Eliot: “que nenhum verso é livre”. Sigamos mais a frente e vamos encontrar Goethe: “para escrever boa prosa é preciso ter alguma coisa a dizer; quem não tem nada para dizer é capaz, todavia, de escrever versos e encadear rimas, porque uma palavra puxa a outra e acaba sempre por aparecer alguma coisa que, intrinsecamente, nada é, mas tem aparência de ser”.

Desta maneira a poesia foi subjugada a um plano de marketing ligado a um projeto de cultura de massa e transfigurou-se: “Neste século que finda, o verso livre ampliou os equívocos sobre a natureza da poesia e abriu caminho para a ingenuidade, o engodo e, mesmo, a irresponsabilidade.” – afirma Alberto.

Seguindo a trilha que Alberto nos deixou, acho eu, que chegou a hora de repensarmos o papel da poesia e principalmente do poeta nestes tempos de capitalismo voraz e contraditório, onde este tenta reduzir o papel e a importância da arte para uma questão meramente mercadológica. A mercadologização e o desleixo da arte são formas de subjugação política e econômica.

A arte poética é uma ferramenta eficaz para a transformação do homem que segue rumo ao humanismo. A poesia que se serve de uma matéria surrada, cansada e moída – a palavra da linguagem coloquial – tem como objetivo principal criar as condições necessárias para a ampliação da capacidade de percepção de mundo através da linguagem, contribuindo desta forma para o surgimento do homem social.

Cabe aos poetas massagear, dissecar, dar vida nova às palavras, ressignificando seus conteúdos. Só assim surgirá uma poesia viva, longe das agruras do mercado e das vaidades. É preciso, poetas do mundo: suar para poder soar, dando um novo sentido à vida, este é o vosso trabalho.

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