POESIA E EROTISMO EM FERREIRA GULLAR

TANGA*

Havia o que se via e o que não se via: a manhã luminosa encobria a treva abissal e velha dos espaços. O mar batia em frente à Farme de Amoedo e ali na areia a gente mal o ouvia se o ouvia.

E era então que ela súbito surgia rindo entre os cabelos a raquete na mão e se movia ah, como se movia!

E nessa translação nos descobria suas fases solares: o ombro o dorso a bunda lunar? estelar? a bunda que (sob uma pétala de azul) celeste me sorria.

*FERREIRA GULLAR In Barulhos, 1987


Com estes versos o poeta maranhense nos mostra, mesmo não sendo esta sua preocupação no momento da criação do poema, aquilo que podemos chamar de erotismo poético. Momento crucial onde forma e conteúdo se desnudam e se confluem num verdadeiro balé: a imagem se oferece, mas o simbólico a encobre com um véu, deixando transparecer os contornos ao sabor dos olhos do leitor. Uma dança de cópula e gozo sem, no entanto, causar espanto aos passantes inebriados, sedentos pela sexualidade barata dos anúncios do marketing.

Neste percurso o poeta não inaugura porto novo nem disseca os caminhos de uma modernidade imposta pelo determinismo dos “fast foods” nem a sexualidade estampada nas redes sociais, antes pratica o domínio da linguagem e da forma de um gênero literário: - a poesia é carregada de mistério, posto que sua carne é metafórica e sua alma é metonímica - onde se constitui como símbolo e se ergue de suas estruturas mais escondidas, adormecidas que estão nas entrelinhas, de onde são acordadas para exercer seu reinado.

A linguagem simbólica sendo matéria prima do poema, carne que se dilui em múltiplas formas do pensamento humano, só existe porque é fruto do inconsciente do homem e só como símbolo resiste às retrancas da censura pueril e vaga, impostas pelas normas da cultura.

Como produto do universo simbólico só menciona os objetos, as formas, os sonhos do homem. O poema fixa-se no terreno das impressões escuras das ideias e das imagens e vive por um não dizer, por um não informar. Este dizer e informar pertencem à linguagem prosaica, fruto das sociedades normatizadas e da padronização dos comportamentos.

No fragmento: “Havia o que se via / e o que não se via: / a manhã luminosa / encobria a treva / abissal e velha dos espaços”, o poeta escancara, rasga o verbo, mas não cai no cotidiano da significação das palavras e nos leva até ao final do poema num clima de tensão onde podemos sonhar e degustar as imagens criadas pelo seu fazer poético, onde o espírito descansa e por fim sonha, transgride sua carne, salva o homem da pieguice e da preguiça, transformando-o num ser holístico, integrado em sua existência.

A linguagem poética não suporta o coloquial da prosa e sua estreiteza de significado. Pode haver prosa poética, nunca o contrário - um “poema prosaico” para se constituir só poderá ser escrito por alguém que nunca leu um poema, mas se auto-rotula como poeta.

O poema antes de nascer se constrói nas imagens que o poeta carrega em seu “SER”, oriundas de suas vivências que buscam sua materialização em forma de arte. É preciso então que estas se transmutem, alcancem-se como símbolo/imagem - impressão daquilo que o olho vê - mas ao transformar-se em verso se vistam com outras roupagens.

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