POEMAS DOS DIAS E DAS HORAS

Coletânea de poemas extraídos do livro Abril Sitiado, que fazem uma reflexão sobre a vida: mistério e matéria para poetas, cientistas e filósofos - corre em nossas veias mesmo quando não nos mantemos alertas ao seu fluxo. Tenham uma boa leitura:


POEMA DA VIDA


I

Não te queria assim:

tatuada, trago no braço

do tempo prisioneiro:

teu compasso me fere

o relógio marca meu tempo ligeiro.

Em tuas águas

minhas estradas me fazem a ferro

não te consigo assim

devagar entre os dedos

escorres e fundo pisas

meu coração apressado

vago paralisa.

II

Vago

em tuas águas

rítmicas e metrificadas - alheias

me levam em seu desenho

à terras de lodo e sal sombreadas.

No meu caderno rascunho

teu dorso, teu cetro

com meus pincéis

te traço com a dor de seus metros.

III

E vago em tuas veias

no sal de tua saliva - beijo

tua carne salina

mesmo molhado trago

nas mãos teus veios

que guardastes a sete chaves

no meu coração

o prumo emprestado

não consigo seguir, minha vida

na noite desenhastes consumida.

IV

Com tua saliva

desenhei meus traços

numa tela pura e imprecisa

o rugor de tua língua

salina - tatuagens

com tuas garras

me prendes e me fascinas

com seu ar de fera

repousas no meu jardim

amarga vida.

V

E no meu jardim

não descanso nem pasto:

suas margaridas de plástico

dormem no centro do meu corpo:

as marcas que desenhastes para mim.

Com minhas armas desembainhadas

parto sem metro nem fim - confusas

tuas águas correm dentro de mim.

VI

E nesta vida

nem descanso nem parto:

já se foi o meu jardim – tarde

hora durmo noutra permaneço

soturno entre dálias e espadas

traço em tua pele ínfimo espaço.

Busco um pedaço de mim

em teus pincéis resquícios

da tinta de tuas águas – sem cor

à nanquim.

VII

Mesmo à nanquim

e com ínfimo espaço

dentro da noite cruzo

teus horizontes - roubo

teus aços e teço fronteiras

muito além de tuas margens

finco o que sonhei

para minha vida inteira:

ver você passar líquida e morna

demarcando minhas fronteiras

com tua seiva alimentar

minhas fruteiras.

VIII

Com minhas frutas parto

de tua saliva cheias:

sangrando, com o meu barco

por entre tuas veias:

desta vez capitão com meus arcos

com o grafite e com as telas

que teci em tuas luas cheias:

enquanto dormias descobri

teus segredos guardados

e que não entregavas para mim.

Com as frutas parto

mesmo sem teu cheiro

e o líquido que escorre em mim

deixo para trás o descanso

de tuas margens na pele tatuada

em mim só o desejo

de navegar o meu próprio fim.

IX

E o meu fim

em tua pele deixará minhas marcas

mesmo sabendo de tuas alquimias:

não ter o medo de ter navegado

em tuas águas ser consumido

depois de terríveis batalhas

encontrar o útero da mãe como medalha:

um porto conhecido ou outros

ainda não navegados

riscar em tua pele:

com o grafite invento

minha navalha.

X

E com o cinzel e meus cadernos

coloridos por esse tempo:

com o grafite na mão e tuas rotas

desenharei assim os mapas: