PINGO E CANIVETE

Sempre foi assim...


O pior era nas peladas: só cansaço, a bola sempre longe, tinha que correr, coração na boca - não ia. Canivete sabia: depois de dez minutos entrava no meu lugar; a solidão e a revolta do banco. Pernas para lá e para cá, a bola no ar, os gritos de gol.

Canivete e eu no final da tarde - a bola embaixo do braço - já não fitava o horizonte, dobrando-se falava o que havia feito de bom naquela partida - minhas vitórias: o tempo maior de jogo, o lance que quase cheguei, o empurrão deslocando o craque do time adversário; força física sempre fora o meu forte, faltava só o fôlego. Eram pequenas vitórias que pesam na hora da decisão. Ele enxergava as coisas por outra perspectiva, me dava forças.

Na escola preferia a turma de trás, gostava de ver todo o mundo conversando, zoando - ficava só ouvindo, era pequeno e gordo: um pingo, não dava para ver o que estava na lousa, os mais aplicados eram sempre os mais altos, na frente tapando a visão. Ficava lá atrás - a turma parecia não me ver - era só ouvidos; Canivete na hora do intervalo vinha conversar, me puxava para junto dos outros - búfalos no disparo da manada - ficava a impressão de chegar tarde.

Á noite, no beliche e as sombras do dia, um anjo talhava dúvidas. Gêmeos, pareciam crias diferentes: dois buchos que não se entrecruzaram durante aqueles longos meses e que continuam agora distantes aos olhos de todos. Canivete não era gordo nem magro. Pingo - "cheira rodapés", assim era conhecido. Só podiam ser de pais diferentes, diziam as más línguas.

Íamos vivendo esmagados pelo cotidiano - olhos e gestos, cuidados e atenção qual um prisma nos dividia. Canivete sempre comigo mostrando a luz do dia - cansou. Vivia me arrastando qual sombra de meio-dia, pregada ao corpo - quis sair do chão. Tínhamos que fazer algo, criar visibilidade.

O foco foi a comunidade, resolvemos tomar conta, dar as cartas. Nada aconteceria sem nossa permissão. Canivete disse que eu era o chefe, quando passava pelas ruas vinham falar comigo. A escola - deixei. Não precisa mais. Trabuco na mão faço os gols que quero.

Todos os dezembros Canivete e eu escrevemos uma carta para Papai Noel, a professorinha sempre cuidou disso, mas agora ele aparece.


Conto extraído do livro: O OLHO DO RINOCERONTE, página: 43.



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