PARA QUE SERVE O POEMA?

Gullar é enfático quando escreve: “O poema não voa de asa-delta/não mora na barra/não frequenta o Maksoud.... /Come mal dorme mal cheira a suor”. Em algum lugar alguém teceu o seguinte comentário: “a poesia não constrói edifícios, avião nem pontes, não serve para nada”. Digo ainda mais: nem para cabo eleitoral ele serve.

Se afinal de contas - conforme Gullar - ele é pobre: “anda a pé/e acaba de ser expulso da fazenda Itupu pela polícia” e também segundo o autor desconhecido: não tem serventia alguma! Por que tantos ainda se agarram a ele e põem todo o ar de seus pulmões no pulmão deste imprestável? Qual o nexo desta conversa? Aliás, acho também que estou perdendo meu tempo! Será?

O carnaval de 2019 em Recife mal passou e a cidade foi invadida por uma enxurrada de lançamentos de livros, e para nosso espanto - de poesia – aliás, este negócio de espanto é típico dele, do poema, que nos pega nos momentos menos improváveis do dia e se agarra ao corpo feito carrapicho, ele adora um pedaço de papel, aí ele te solta. Estes lançamentos, acho eu, que cerca de 10 novos livros, aportaram e encheram o “mercado” editorial da cidade.

É uma prova incontestável da teimosia de uns que se agarram ao último pedaço de madeira do naufrágio, para tentar chegar a um porto seguro salvando-se e também trazendo pelo pescoço - o imprestável do poema.

Por falta de velocidade e por estar cercado de tantos poemas, inclusive os meus, remendando-os, perdi uns tantos desses lançamentos, mas fui ao de Natanael Lima Jr. e assisti ao nascedouro do seu: “Ensaio sobre a canção árida” (Imagética Edições).

Um belo projeto do autor, que aproveita para lançar seu selo editorial. O livro é dividido em seis canções e conta com uma orelha escrita pelo professor e crítico literário Neilton Lima e, ainda com uma belíssima apresentação de nossa diva: Maria de Lourdes Hortas.

O livro abre nosso “espanto” a partir do título: “Ensaio sobre a canção árida”, metáfora profunda que trata sobre a nossa existência no mundo atual, perpassada pela pressa dos dias e das redes que nos coligam às nuvens dentro dos computadores. Também nos apresenta um poeta mais maduro, cônscio de seu papel social neste mundo - acima de tudo cibernético - procurando extrair da palavra seus sentidos mais antagônicos e possíveis, reverberando uma dialética sobre seu papel na linguagem poética. A poesia revive destes momentos - de crueza e alento em sua pele, para dela extrair a seiva mais propícia à sua assepsia.

Os ensaios são acima de tudo um grande diálogo do autor com vários poetas e suas tendências poéticas. Vamos ver conversas com os escritos de Drummond, Mário Quintana, Celina de Holanda, Jaci Bezerra, Goethe, Chico Buarque de Holanda, Walt Whitman para então, brotar novos rumos para sua expressão artística. Também é um tributo à mulher, várias delas transitam nas pautas sonoras das canções dando-lhe voz, timbre e maciez.

Gosto muito da quinta canção e seus desdobramentos: “A noite me condena/à prisão perpétua. /Por entre as minhas mãos/de condenado, /o tempo abrasado/lavra a dor”. Mais à frente: “Na conta/do cio/estou por um fio”.

E por aí segue a trilha das canções numa busca insana para agradar o imprestável do poema, para o qual o poeta aponta uma contraindicação: “A poesia é contraindicada/em casos onde a palavra teima/não tecer manhãs”. Vamos ver se depois desta, o poema resolve acordar e se prestar a algo nesta vida.


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