OS SONETOS DE JOSÉ LUIZ MÉLO, DOS ÚLTIMOS AO COMEÇO

Atualizado: Mai 8

Terminei de ler, faz alguns dias o: “Terceiro Livro dos Sonetos – os derradeiros” do poeta/sonetista, José Luiz Mélo, na esperança de rapidamente escrever alguma coisa que fosse para o amigo: um comentário, acenar o recebimento ou quem sabe, fazer uma crítica e que depois de terminada a leitura/viagem – vi que essa não tinha como entrar no contexto. Ainda assim teimei nessa tecla.

Com o passar dos dias, certifiquei-me de que não havia como avançar nesse objetivo, porque no livro só há espaço para elogios, pela bela poesia que apresenta.

Ainda assim fiquei com algo batendo na cabeça, já abandonando as teclas da crítica e embarcando no mundo da filogenia do poema, na busca por encontrar algumas respostas. A primeira delas: como acontece essa enxurrada de versos de tão rara beleza estética - reprimidos que estavam no tempo, e agora se jogam no mundo numa escala estonteante, sempre crescente?

Pergunto isso, levando em consideração as confissões que o autor fez em conversas nas mesas dos cafés - que por longos anos manteve em suspenso sua produção literária, dos sonetos principalmente. Tempos esses dedicados à medicina: pernas, braços, costelas, pés, colunas... tomavam conta do seu cotidiano - duro osso.

Levando em conta o exposto acima, vieram outras, martelando na cabeça e também nos ossos: podemos fermentar versos nas gavetas? Se sim, por quanto tempo eles resistem ao mofo e à escuridão do seu claustro?

E ainda, o que acontece para, depois de voltar à luz, os versos, um a um, parecendo concorrer entre eles – livro após livro – embarcam numa luta laborativa com o objetivo de alcançar o primeiro lugar e vencer o certame?

E seguindo essa linha, em se tratando dos sonetos - como os últimos se tornaram os primeiros, levando em conta a qualidade da escrita do poeta que só cresce do primeiro ao último, numa escala de enlouquecer qualquer perguntador maluco?

Corri atrás das respostas, metendo os olhos e a cabeça nas páginas do livro - devagar - como quem saboreia um prato fino, preparado com os melhores ingredientes: a melhor carne, os melhores molhos e a pitada de sal inequívoca - qual sol de meio dia, de sombra única, que não oferece espaços para outras estripulias. E assim fui mastigando, colhendo imagens e seus sabores.

Na estrofe: “Detrás, a linha férrea, um muro alvo, / e dentro, único mundo que existia: / a flor da carambola que se abria, / mais um bodoque para o tiro ao alvo.”, pergunto-me: quanto de tempo essas palavras, uma a uma, carregam na memória essas imagens, seus barulhos, na surdina da gaveta, para enfim gestar na brancura do papel, derramar seu sangue, suas necessidades de luz?

Na realidade, não há silêncios nas palavras. Na música sim, ela é construída pelos silêncios dos seus compassos, esses são espaços onde adquirem fôlego para existir. Porém, nos poemas as palavras lutam entre si, reclamam o tempo todo buscando luz, forma e ritmo, enfim sua dança - o surgir. Elas brigam para formar o melhor pelotão na esperança de vencer a escuridão do útero seco da escrita.

O poeta - ser que nunca dorme nem descansa - diferente do musicista, só encontra sua manjedoura no aço da busca da palavra enxuta, concreta, de dura captura, aquela que caiba no seu panteão de agruras. Não existe jardins nem paraíso nessa busca.

Elas não se entregam, mesmo desnudas depois de presas, assim mesmo, só mostram um lado da face - de tantas escondidas sob o véu da noite - para enfim se entregar ao poema, dando sobrevida ao poeta: “Este verso que busco impressentido / do que sou, se inexisto ou significo / concretude de ser, pois eu complico, / trocando a roupa de que estou vestido.”

E por aí segue o poeta no seu caminho mal assombrado: “Hoje me perco no único caminho, / um andante que vem desnorteado, / a nau perdida, um animal marinho, / que a maré seca deixa abandonado.” Neste momento só palavras tensas, tagarelando o tempo inteiro, o poeta carrega no seu alforge ferindo seus silêncios.

Elas sempre gritando, batendo nas mesmas teclas só pensam em si. Pobre poeta, difícil de se achar - entregue que está na busca incessante da resposta: o que é poesia? “Para que não me perca, a contragosto, / mandei tecer, por fim, meu monograma, / bordado na lapela do pijama.” Para enfim deitar e dormir, pensando que a tarefa foi cumprida.

Tanto não foi cumprida, nem a dele nem a minha - do amigo José Luiz - que quero fazer uma correção: teria terminado de ler o livro, como está no começo deste texto. Um livro como este, cheio de barulhos e intrigas, de memórias revividas e paixões mal resolvidas, nunca se termina, há sempre que se buscar o que as palavras dizem, futriqueiras que são, estarão sempre vivas buscando um pé de orelha, sempre terão coisas pra dizer: um fuxico, um disse-me-disse, um questionamento.

Desta forma, seguindo o poeta: “Cumprirá a palavra, o juramento, /não deixará ouvir um só lamento, /ver lágrimas detrás do seu Ray-Ban.”, confessa ele e eu também, retornando à primeira página do livro - o que mais me diz os versos de José Luiz? Vou buscar, sempre, com os olhos e ouvidos atentos.

Ainda bem que este não é seu derradeiro livro, obedecendo o título, este fecha uma trilogia de 150 sonetos - sua saga continua em busca da palavra nua, do verso redimido.



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