OS SÍTIOS DE UM TEMPO


Por Maurício Melo Júnior*


A tradição poética, que no caso brasileiro começa com Bento Teixeira e sua Prosopopéia, é um alicerce infindo. Há sempre alguém botando tijolos e mais tijolos nesta Babel. Depois de Bento vieram os poetas da Inconfidência, os parnasianos, os românticos, os simbolistas, uma sequência que se agrava com as vozes estrangeiras e os hiatos. Essa história de hiato também é um dilema. O mais conhecido deles, Augusto dos Anjos, está impregnado do sentimento melancólico e mórbido simbolista. Assim segue a construção, em camadas que começam revolucionárias e se tornam canônicas.

Frederico Spencer vem seguindo a tradição e se mostra como pós-poesia marginal que, no caso do Recife, circulou em torno das Edições Pirata e deu nomes como Juarez Correya, um poeta que olha o universo Latino Americano a partir dos canaviais palmarenses e complementa a trilha da Geração 68. Já Frederico, embora impregnado da temática marginal – confrontos políticos e desesperos de amor – vai além ao se impor outra estética. Seus versos já não privilegiam a linguagem intencionalmente descuidada e cotidiana, ao contrário há uma atenção com a carpintaria, com a confecção frasal. “Hoje sou medo vazio/indomável solidão escura.”

Apanhando referências de todas as águas – Jaci Bezerra, Carlos Pena Filho, Carlos Drummond de Andrade – Abril Sitiado trabalha com metáforas. Seu autor pode ser lido como um poeta metafórico, um poeta que se esgueira nas entrelinhas, sempre a dizer muito além do que está claro nas letras impressas. “A cidade dos homens / me cobre com suas asas de cera.”

Na parte política da lira as metáforas, bem ao modo da tradição, se fazem mais presentes e explícitas. Isso, no entanto, não esconde seu sentimento de homem contemporâneo, homem preocupado com o martírio e a opressão. Ele fala do abril que rompe a liberdade es escurece por vinte anos todo um país, mas onde ainda sobrevive o sentimento da resistência, mesmo desigual. “Talvez haja poesia (a)manhã / se a paixão não corroer / as palavras no papel.”

O amor se contradiz com a paixão e se revela discretamente erótico. Parece não ter pressa e se traduz numa normalidade que não se faz banal por conduzir uma força que supera barreiras. São todos – amor, paixão, erotismo – “pontos de partida”, recomeços perenes, “Em teu leito desejo e barro tecem homens.”

A paisagem é outra presença indissolúvel no texto. Curiosamente o Recife é feminino e se contradiz ao Recife másculo onde Gilberto Freyre impunha: “O Recife sim / Recife não.” A cidade de Frederico é outra; a paisagem é outra. Suas ruas e campos são maleáveis, molengas, de massapê puro. “a giz / traço no meu caderno tuas rotas / até onde o medo me cabe: / inventários de sombras – pátio aberto.”

E daí vem o tempo incansável, sempre a deixar lastros e traços nos homens e nas mulheres. Seu passar é de quem caminha na poeira, sempre imprimindo o chão com suas marcas no chão, implacavelmente. “Num gesto antigo, trago o coração à mesa de jantar.”

E dando os trâmites por findos, preciso se faz dizer que Frederico Spencer é um poeta da contemporaneidade. Pensa e expressa seu tempo com uma lira doída em suas sangrias naturais, mas carrega a esperança na ponta dos dedos.


*Apresentação do livro: ABRIL SITIADO. Editado em 2011 pela Edições Bagaço.

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