O SEGREDO DA OSTRA

Acreditava que nascera daquelas vozes - elas ecoavam pelas paredes da casa em surdina, como uma onda, parecia uma só: “será um homem forte, com a graça de Deus!”.

Esta lembrança pesava sobre ele com uma força descomunal. A voz da mãe sobre seus ombros, qual uma cruz, redimiam seus passos.

- Não chore. Volto sim para tirar vocês daqui. Mãe, eu volto sim!


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Mais devagar do que aquilo era impossível, daquele jeito podia até ser atropelado pelas pessoas. A passos de tartaruga andava pelo calçadão da praia, não conseguia desgrudar os olhos do piso; se intrigava com aquelas marcas - as medidas dos metros no chão. O sol batia e isto o embriagava.

Para ele tudo aquilo servia como marcos da perseverança de muitos atletas de final de semana. Ele continuava sua cambaleante caminhada, atento, os olhos pregados, pouco a pouco os metros o consumiam, vez em quando fitava o horizonte.

Era sedentário - vez ou outra saia para a praia, o calçadão era seu local preferido, lá não iria se sujar com a areia nem levar nas costas o sol prometido para cada um dos banhistas; acostumou-se a procurar um belo local para sentar nos bancos de concreto e observar. Observava muito, todos e tudo que passava diante dos seus olhos, mas, havia uma predileção: os corredores - como podiam? Esta energia vinha de onde? Tudo era admiração e busca de respostas que não sabia onde encontrar.

Já a algum tempo estava afastado do trabalho. A família longe. Era menino do interior que veio à capital para estudar – resultado dos esforços de seus pais, meeiros da aridez do sertão, acostumados com a secura e os pedregulhos dos caminhos, semeavam esperanças. Tornou-se funcionário público. No apartamento, reprodução fidelizada da caatinga, acostumara-se com a solidão e seus gritos.

Mesmo avesso às tecnologias começou a utilizar o smartphone, havia uma paixão por imagens, passou então, dissimuladamente, a fotografar todas as pessoas que chamavam a sua atenção.

Resolveu fazer selfie: no calçadão postou-se sobre a marca dos 100mts - como se estivesse correndo, fixou a câmera de cima para baixo, fez cara de cansaço e tirou sua primeira selfie. Abriu uma página no Facebook, montou seu perfil e postou sua primeira imagem. Comprou tênis, calção e camisetas tipo regata. Neste dia ninguém curtiu, mas estava feliz.

O segredo agora era acordar cedo todas as manhãs. Na praia, já não estacionava o carro no mesmo local. Ia sempre à frente, no hodômetro mais 1 km a frente e colocava o pé no asfalto.

Na nova marca disparava o smartphone, sem esquecer do suor no rosto: água mineral resolvia e, cara de cansaço. Sucesso total. Havia aprendido a fazer postagens de fotos e textos na página e a operação fora feita ali mesmo, sem perder tempo. Aguardou o dia inteiro, não houve nenhum aceno, nenhum “coração” pulsou na telinha para ele naquele dia.

No Youtube buscou respostas de como ser feliz usando as redes sociais, assistiu a vários vídeos e comentários. Descobriu que podia ganhar um bom dinheiro com postagens, foi um deslumbre. No “Face” buscou ganhar amigos, descobriu os “grupos” e os “seguidores”, um novo mundo abriu-se perante seus olhos.

Descobriu também que podia convidar pessoas para sua página, aí, tudo ficou mais fácil. Buscou numa antiga agenda alguns nomes e pôs-se à caça. Foi o dia todo em pesquisas - um gostinho de vitória escorria no canto de sua boca. Salivava.

Numa manhã acordou com um “OK” em sua mais recente postagem, isto acendeu suas convicções, tudo acontecera com poucos dias como internauta. Suas estratégias e seu trabalho estavam enfim surtindo efeito, refletiu. Tinha que continuar o trabalho; no outro dia mais um quilômetro à frente: garrafinha e celular na mão, molhou o rosto e mais uma selfie.

Alfredo, vizinho de birô na repartição entrou em contato, deu uma curtida e o parabenizou, dando força ao amigo; pouco se falavam, mas estavam sempre juntos no cafezinho para depois retornarem ao atendimento ao público. O papo era sobre o trabalho, o cansaço e a mesmice dos dias.

- “Logo ele, por quê estaria fuçando as redes sociais?”. Talvez fosse uma resposta ao intenso trabalho que estava realizando nas redes - estava influenciando pessoas agora, alegrou-se.

Fernando, absorto que estava em suas novas descobertas esquecia sempre de responder aos acenos e anseios dos novos amigos, focado que estava em seu tráfego na web. Tudo exigia pressa e determinação.

Seus dias transformaram-se em ida à praia e intenso trabalho na tela do computador. À noite buscava curtidas, acenos, e ainda ficava expiando outras páginas. Nas manhãs mantinha um ritual solene: estacionar o carro sempre um quilometro à frente do dia anterior, fazer uma selfie na marca do calçadão e postar na página.

Desta forma viu crescer os comentários, likes e curtidas: os amigos o saudavam pelo belo trabalho em prol da saúde e bem-estar, era um exemplo a ser seguido por todos. Começaram a surgir convites para entrevistas em jornais e rádios - se transformara num sucesso, enquanto, na sua página crescia o número de acessos e seguidores. Começou a postar conselhos e receitas sobre “O que fazer para garantir uma boa saúde física e mental”.

À medida que os dias iam passando, fosse na praia ou em casa, sentia uma estranha sensação - “alguém” o estava seguindo. Olhos o seguiam, pressentia um bafo quente soprando no seu pescoço, dentes mordendo sua jugular – começou a sentir medo. - “A internet me fez ficar conhecido e querido por muitos. Celebridade é isto aí.” – pensava ele acalmando-se.

Num dia desses avistou seu amigo de repartição, Alfredo perambulando pela praia – “será que havia pedido afastamento da repartição também?” – se perguntou! Máquina fotográfica ultramoderna na mão, trocaram acenos, mas não houve conversa, tudo fora muito rápido, diluíram-se na multidão, embaixo de um sol intenso.

Com a noite abriu o Messenger: havia algumas fotos dele descendo do carro, fazendo as selfies sobre as marcas do piso e indo embora. Os dias e as horas foram marcados também. - Seu amigo Alfredo avisando que ia também abrir uma página no Facebook, tinha muito material para postar. O tema era: “A felicidade no mundo atual”. Pediu para ele curtir e seguir.

Fernando abandonou suas postagens, deletou sua página, ficou com os olhos pregados na página do amigo, deixou até as marcas do calçadão em paz. Passou a sair da cama só à noitinha.

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