O LIRISMO INCENDIADO

Atualizado: 19 de Abr de 2019

Falando em poesia, para efeito de conceito - o “Eu Lírico” é aquela voz que soa no poema, transgride a página e salta aos olhos do leitor, fala em nome daquele que escreve. Esta voz exprime os sentimentos e as emoções do autor. Invenção dos poetas, tem em Fernando Pessoa, um dos grandes da língua portuguesa, um dos maiores precurssores.

Dividindo sua obra com três heterônimos: Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, o autor afirmava que “o poeta não cabe no poema”, pois, cada um destes possui personalidade e formas de expressão próprias expondo suas vicissitudes e seus fingimentos - falando em nome do poeta.

Há também outros tipos de narração que também fazem parte da prosa: narrador protagonista, testemunha, personagem (observador ou onisciente) e por aí vai, no momento, não vale a pena discorrer sobre estes.

O foco é falar sobre: FEBRE (Editor Tarcísio Pereira, 2018), primeiro livro no gênero poesia de Taciana Valença. O livro - um belo projeto editorial - tem orelha escrita pelo escritor Sidney Nicéas, prefácio de Bernadete Bruto, posfácio de Luiz Carlos Dias e uma apresentação de Fátima Quintas.

A partir do título, o livro nos impõe um mergulho no universo quente e profundo da poesia de Taciana. No dicionário, tirando o significado para a medicina e nos atendo ao seu sentido figurado, febre quer dizer: “ânsia de ter, de possuir; desejo ardente; anseio”. Este mergulho é oferecido em todos os versos do livro - expostos sem medo e sem fragilidades: “Estranhamente alimento as entranhas/ palavras estranhas no rebuliço/ poético, frenético e difuso/ uso e abuso”, como uma onda, levam o leitor para mares bravios, onde não há rotas preestabelecidas e os portos vão ficando cada vez mais distantes.

Porém não há o que temer, estamos num delírio onde queremos cada vez mais estar presentes nesta torrente de água e ondas - tudo aqui é velocidade e desejo. A parada só acontece no ponto final do último verso, para em seguida sermos jogados na profusão do próximo poema: “E se me falares dos medos/ que teus mistérios rondam, / falarei das sandálias, / das amarradas tiras/ guardando rachados pés/ sobre solo severo.”.

Nos poemas do livro encontramos a marca registrada da poeta e, que traz consigo a mesma vontade de expressão nascida na adolescência - mergulhada na praia de Piedade (PE) - não que seja ingênua, ao contrário, mostra-se verdadeira e consciente. Ela não se entrega aos medos das críticas, tudo é: “desejo ardente. Ânsia de ter, possuir”, como está descrito no significado dos dicionários e aqui, Taciana deixa seu “Eu Lírico” falar, incendiado, sem cercas, alcança o fogo das fronteiras e ultrapassa seus limites.

FEBRE, segue o poeta Bandeira: “Estou farto do lirismo comedido/ do lirismo bem comportado/ do lirismo funcionário público com livro de ponto.../ Quero antes o lirismo dos loucos/ o lirismo dos bêbados/ o lirismo difícil e pungente dos bêbados/ o lirismo dos clows de Shakespeare.”

Interfere na lógica das técnicas literárias; tudo aqui é impulso do ato de escrever, de não perder uma imagem, um sentimento qualquer, porém, se transmuta na intuição que traz em seu espírito de desbravar seu interior, mergulhando nos seus desejos, incendiando seus medos: “Recuso-me às trancas,/ ao que se fecha, parte o peito./ Fere, é flecha./ Entreabertas quero/ todas as portas.”.


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