O CONFLITO DE NARCISO

Em literatura, o campo das “verdades” está nas mãos do jornalismo, das ciências, das bulas dos remédios, dos manuais técnicos e das religiões. A linguagem neste cenário obedece a um padrão: deve ser rígida e concreta, visando o conteúdo único e estático da realidade, para ser facilmente consumida tornando-se desta forma, um instrumento eficaz para a prática dos discursos ideológicos.

A literatura dos romances, novelas, contos e poesia, diferentemente, deve ser antes de tudo um jogo de sedução. Sua linguagem é carregada de significados e de sentidos, desta forma constitui-se num convite para uma viagem sem roteiros preestabelecidos, onde os passageiros desta nave aportarão no cais de sua preferência - no recôndito de suas almas. Esta viagem trará inquietações que deverão abrir novas fronteiras no pensamento do leitor.

Para tanto, a linguagem ficcional deve libertar-se do coloquialismo da palavra usual, campo das ideias do sentido único, para transformar-se em ferramenta de libertação do espírito, impulsionando a potencialização dos aspectos humanos.

Neste sentido o signo deverá se transmutar fugindo da lógica do cotidiano. Seu interior deverá ser carregado das imagens oriundas das memórias do escritor e grafado sobre a ótica das figuras de linguagem – principalmente - transformando-se desta maneira, num novo produto textual, rico em conteúdo imagético, capaz de transportar o leitor para dentro da estória.

Este não é um trabalho fácil para aquele que pretende escrever - transportar para o papel aquilo que traz em seu pensamento, rico em conteúdo representacional - para se tornar algo palatável ao gosto da escrita. Atento a este fato o poeta e crítico literário César Leal afirmou: “Ao usar a palavra para expressar a imagem que traz no seu espírito, o poeta livra-se do espacial e pode revelar os estados de sua alma, suas paixões, todos os movimentos do seu espírito”.

Neste sentido, a arte é a linguagem da experiência e ela não está dentro do objeto, mas permite que vejamos diretamente o que está em nosso interior - o nosso conteúdo. Ela é um espelho que revela nossas marcas, nossa história.

Assim acontece em “A METADE DO QUE EU ERA” (CEPE EDITORA), do escritor pernambucano Edgar Mendes Nunes. Um livro acima de tudo, de reminiscências, contadas em dois gêneros: conto e novela, técnica esta que expõe corajosamente o autor levando-o ao seu clímax na arte de contar histórias, oriundas das profundezas de sua memória.

Estes foram os meios encontrados pelo autor para mergulhar naquilo “do que era e do que é”. Momentos estes que se enroscam na estrada dura de barro, no sol do sertão, na sombra materna do pé de fícus e nos banhos de rio, misturados com a vida urbana dos dias atuais, enredada de maneira leve, harmoniosa e que prende a atenção do leitor do começo ao fim.

O autor também se embrenha nestes dois caminhos: do conto e da novela, penso eu, como forma de mediação das contradições do seu “estar no mundo”, contradições estas, próprias dos seres pensantes que buscam respostas num mundo contraditório. Este é um livro de jogo de espelhos, típico de quem senta num sofá para expor suas verdades. Neste instante busca a fonte freudiana: serve-se dos lapsos e da memória – a dualidade do ser, para apaziguar as dores do inconsciente.

Neste livro, aquele que se apresenta nem sempre é aquele que fala, pensa e sofre com suas dores mais profundas. Narrador e personagens se entrepõem numa mística textual disfarçada pelas memórias de um tempo que resiste e pulsa, mesmo mesclado com os acontecimentos mais recentes de um cotidiano que insiste em sobreviver além do seu passado. Espaço e tempo se interpõem buscando uma dialética inevitável para o encontro do homem consigo mesmo.

Aqui há um jogo de cena que busca nos colocar frente a frente com nossas vidas, portanto, com nossas memórias, boas ou ruins, sempre de mãos dadas com o autor.

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