MIRÓ, MUITO ALÉM DAS PALAVRAS

mais uma tarde está indo

embora

a noite já se arruma com suas luzes”.

Miró

Quando leio um livro de poesia, de cara, levanto algumas questões que acho interessantes e sigo na busca para suas respostas, primeira: qual a função da poesia para o poeta? Qual a representatividade dela para o mundo na visão do poeta? E a última: qual a função da palavra para o poeta? O caminho mais curto, se este existe, é começar pela última, neste caso “os últimos serão os primeiros”. A partir daí buscar as respostas que faltam neste quebra-cabeça.

A palavra é a matéria-prima do poeta para exercer seu ofício, seu cimento, seu barro. Sua ferramenta básica é o domínio da língua e da linguagem. Nesta relação deverá conter, além do amor incondicional, um estreito relacionamento entre ambos, neste caso, o amor não pode ser platônico, mas carnal.

Para se construir um bom texto literário é preciso, antes de tudo, conhecer o caráter multifacetário do signo, esmiuçar sua alma, despir a palavra e não cair no seu primeiro encanto - o maior problema para aqueles que querem escrever - entregar-se ao seu primeiro beijo.

Antes de assumi-la deve-se desconfiar dela, de sua plástica, de sua estética, de sua prosa, de sua ética. O foco aqui é buscar sua alma, dissecar seu interior em busca de seus mistérios - qual medusa ela recusa o olho no olho - portal de seus medos.

Miró mostra esse poder de trazer ao mundo o conteúdo simbólico de sua alma de poeta, não se entregando à atração feminina do símbolo, ao contrário, retira dele a substância necessária para transformar em matéria viva suas inquietações de artista vivente num mundo antagônico: “As pessoas estão passando / para mais uma segunda-feira / eu sentado no banco da praça / ainda sou domingo”. Dessa maneira forja - numa bigorna, o conteúdo de seu pensamento estético, do seu “estar no mundo”.

Mais uma resposta, no verso: “olhei para o passado / as folhas do calendário / caindo”, a poesia retoma seu papel, desmistificando-se em relação ao poeta, de uma condicionante transformadora da realidade: ela joga escritor e leitor a um outro mundo - subjetivo e rico de significações, transcendendo o cotidiano para outro universo, sem datas para acabar. Desta forma o homem alcança sua infinitude, utilizando a escrita, documento de sua estada neste planeta, sem a solidão aparente da vida: “solidão é no caixa eletrônico / esquecer a senha”.

Assim é Miró e sua poesia, todas as perguntas foram respondidas.

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