MÚSICA PARA OS OLHOS

Vamos começar este bate-papo com um poema:


PROGRAMA*

Não escrevo como quem lança

pétalas num mar infinito,

mas escrevo como quem pesca

o peixe-leitor distraído;

um programa oculto admito

e todo um preparo de isca,

de lançar e esperar o tempo

do bulir da linha, da fisga

e, depois do debatimento,

arrancar o anzol das gengivas

e ao mar devolvê-lo mais vivo.


*Poema do: “Em Mar Alberto” (Editora Mondrongo), segundo livro do poeta Newton Messias.


Ele, o poeta, observa em sua “Nota do Autor”: “Em meu tardio despertamento literário, descobri-me um poeta albertiano”. Pego o mote e amplio o leque: “antes só do que mal acompanhado, antes tarde que nunca” – velhas máximas que não tem nada a ver com o caso: despertar com Alberto da Cunha Melo como mestre de cerimônia, em meio a toda sua obra é um ato de esperteza e astúcia de Newton que ainda achou pouco e se embrenhou no meio das “retrancas” que o mestre deixou como ferramenta para quem quer se tornar um bom poeta.

Quanto à questão do tempo, este foi fecundo para a formatação de sua bela poesia - é melhor apurar do que fazer uma massa sem gosto, - dura e quente; para o vinho, o passar do tempo é essencial, o que lhe dará identidade e preço.

A poesia de Newton não se esgota nas medidas autoritárias da composição de suas “retrancas”, ela ultrapassa suas cercas violando suas fronteiras - vai além - carregando o leitor para o mar aberto: “Deixa este poema passar/com sua luz ou sua sombra/ouve a notícia que ele traz/como garrafas sobre as ondas: ...” qual filho que obedece aos rigores do pai, mas não deixa de tentar seu infinito.

Newton tem o domínio total de sua criação, não se deixa levar pelos apelos histéricos do verso que se abre e se oferece por inteiro, antes ele o disseca, analisa, dialoga com o mesmo para saber suas intenções: “Seja no Louvre ou ao ar livre,/ao mundo não falta beleza/está de fato empanturrado/e arrota diamantes na mesa.” Domesticado o animal, não retira dele a sua essência - a sua selvageria – antes, aguça sua força, sua retórica em prol do poema.

A poesia marginal tempera as vísceras de sua poética, mas não lhe dá seu gosto - agrega valor. E sua poesia segue: “Ninguém deseja um bom poema:/talvez um laxante, um analgésico,/uma cirurgia corretiva/pra um suposto defeito estético;...”.

Os versos são como notas angustiadas na pauta da música, açuladas na composição, entre compassos e o tempo rígido de execução, complementando sua poética, mas não se dão por vencidas, se ajustam numa sintonia fina: “São quilômetros e quilômetros/de rodovia engarrafada: /cápsulas metálicas, bêbadas,/ bebem óleo e sopram fumaça;/as nuvens, em suas fardas brancas,/mantêm a pose, não reclamam”.

Deste modo, música e poema - mistura que o poeta traz em seus olhos apregoados na vida em desespero, complementa os versos de Bandeira: “Eu faço versos como quem chora/De desalento… de desencanto…/ Fecha o meu livro, se por agora/Não tens motivo nenhum de pranto. / Meu verso é sangue. Volúpia ardente…”. Tudo isto é música aos olhos: valeu Alberto, Newton e Bandeira. Em Mar Alberto.



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