DO PAPEL AO ACELERADOR DE PARTÍCULAS

Atualizado: Mai 20

O mundo pós-moderno carreado pelo avanço tecnológico nos trouxe, sem dúvida, inovações maravilhosas. Destaco aqui a internet como a principal delas. Ela acabou trazendo o mundo para a palma das mãos de muitos, isto é, daqueles que podem ter acesso a uma banda larga carregada com muitos megas em seus laptops, celulares, computadores - em casa ou nos escritórios, quando funcionam é uma beleza.

Duas condições básicas pesam neste sentido: poder aquisitivo da parte do futuro cliente e também uma rede de cabos de fibra ótica novinha em folha clipsada nos postes - esses tão velhos quanto a lâmpada amarela que os ilumina e que também, não ilumina ninguém.

Esses postes, cansados e tristes - anjos decaídos - qual os velhos cravos, advindos das cruzes dos romanos - rasgam as carnes murchas das antigas ruas: de barro ainda, dos bairros que mal existem no farol do poder público. Elas, as ruas, sonham com redes subcutâneas para encobrir sua pobre realidade.

Tudo isso junto, tirando essas precariedades, as coisas funcionam, até antes de uma chuva pesada ou enquanto nenhum cabo novinho em folha seja vendido equivocadamente num ferro-velho, que vive à deriva nas velhas ruas murchas de barro - iluminadas pelo amarelo das lâmpadas da cidade.

Água, papel, o barro e a velocidade do acelerador de partículas moldam este mundo tecnológico, irreversível e mágico. Nesse mundo novo, coisas novas surgiram, outras continuam a existir, porém, tiveram que se modernizar - outras sumiram ou estão com seus dias contados.

Assim, nós - os hodiernos - seguimos a vida entre os fios e as nuvens que não conseguimos enxergar, mas sabemos que elas existem, porque é lá onde nossos dados estão adormecidos, esperando o toque mágico dos hackers ou do mercado financeiro que, não dormem, entretanto, importunam nosso sono neste berço esplêndido.

Mas, o que é de cair o queixo, é o celular. Este tornou-se dama de companhia, banco, cinema, televisão, rádio, guardador de documentos, lista telefônica, fax, máquina fotográfica e de escrever, telegrama... enfim, um monte de coisas que não dá nem para enumerar e, olhe que ainda teremos muitas novidades, tão rápidas, que temos que ter dinheiro no bolso (coisa muito antiga), para adquirir o modelo mais novo – novinho em folha – que também precisam das redes pregadas nos velhos postes - pensos - das velhas ruas.

Outra mudança significativa que o celular trouxe para a vida das pessoas foi o acesso - a qualquer hora, minuto, segundo - do trabalho ao trabalhador - pobre deste que nem dormir consegue mais. Não falo daquele sono, na hora do expediente, mas sim do noturno, antes sagrado para o bom descanso do cérebro.

Com horas que extrapolam os relógios, sem expediente definido, sem privacidade e nem os direitos trabalhistas de antigamente, o homem pós-moderno, qual postes pensos, bem carregados das antigas ruas da cidade, penam com as redes de cabos de fibra ótica, novinha em folha, sobre seus ombros.

A sociedade pós-moderna quebra as barreiras da organização social e transfigura toda uma realidade em prol de um lucro, cada vez mais consolidado nas mãos de poucos, pouquíssimos, parecendo querer voltar a um passado medieval.

Neste berço das redes, sejam elas de fios ou das nuvens, se perderam as fricções sociais que movimentaram antigas reivindicações: do trabalho e também da mobilidade social, às quais o pensador alemão Karl Marx sabiamente definiu: a luta de classes, como fomentadora de direitos sociais.

Hoje, suponho que estamos vivendo sob a égide da teoria Weberiana - do estamento social. Que se define, numa rápida análise, como uma ação social, onde simplesmente não há luta de classes, portanto - da busca de direitos - já que a luta se reflete pela sobrevivência do cotidiano, à qual aparta o ser humano de sua utopia - de um mundo justo e igualitário.

Neste caso, o antigo sustenta o supernovo, tão débil quanto o vento que balança os fios naqueles postes - cansados e tristes - fincados sobre o barro que construiu o homem; suas ruas e seus sonhos, - embora com os fios e suas parafernálias - para a construção de uma sociedade puramente humana.














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