DAS VERDADES, MENTIRAS E FICÇÃO

No poema “Autopsicografia”, Fernando Pessoa verseja sobre o fingimento do poeta: “O poeta é um fingidor/ finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente”. Na segunda estrofe provoca o leitor: “E os que leem o que escreve/ na dor lida sentem bem/ não as duas que ele teve/ mas só a que eles não têm”. E na terceira estrofe, dá o arremate final falando sobre nosso comportamento diante de nossas mentiras e verdades: “E assim nas calhas da roda/ gira, a entreter a razão, / esse comboio de corda/ que se chama o coração”.


No dicionário, a palavra “mentir” quer dizer: “falar como se fosse verdade algo que não é: enganar, iludir, ludibriar”. O filósofo Immanuel Kant - pai do estudo da ética - afirmava que: “a mentira nunca, em momento algum, deveria ser dita”. Abrigava-se na ideia que: “não deveríamos fazer com o outro aquilo que não queremos que façam conosco”.


O ato de mentir nem sempre está ligado ao ato de enganar, antes, tem o objetivo da defesa de um “self” em sofrimento. Segundo o professor Felipe de Souza: “No fundo, tal hábito pode esconder uma autoestima rebaixada, alguém que está em luta para ser visto e considerado como grandioso, ocultando um sentimento inconsciente de insegurança e menos-valia”.


O poeta Mário Quintana em uma de suas licenças poéticas afirma que: “A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Segundo estudos, a palavra “verdade”, vem da palavra “Aletheia” que significa “não esquecimento”, deve vir daí o dito popular “mentira tem pernas curtas”, e isto parece ser verdade ou não, porque, mentira ninguém esquece.


Para os quadros mais graves, onde o indivíduo perde a noção da realidade em prol da sustentação de suas mentiras, existe a denominação de “mitomaníaco” que, segundo o professor Hélio Deliberador da PUC-SP: “Trata-se de um processo de adoecimento psíquico, onde a pessoa que sofre vive alimentando mentiras. Mentiras que geralmente elevam a importância dela, as realizações e todo esse quadro de poder”.


Podemos definir ficção como “ato ou efeito de fingir, de simular uma intenção ou sentimento; falsidade”. A criação literária é definida como “criação da imaginação, invenção fabulosa, opõe-se ao que é real; fantasia”, segundo o dicionário da língua portuguesa.


O psicanalista Jacques Lacan nos fala: “o fictício, efetivamente, não é, por essência o que é enganador”. Esta afirmação salva a todos nós porque nos mostra que faz parte da condição humana fantasiar, isto nos distingue de todos os outros animais. Só nós humanos temos a capacidade de imaginar o que há de vir e também de não aceitar nossa realidade. A nossa literatura está repleta de fantasias que nos fazem viver a vida real de maneira mais sólida.

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