DA LAMA À PEDRA: UM ENSAIO POÉTICO SOBRE A MODERNIDADE

Atualizado: Mar 17

Seleção de poemas que traçam nossa trajetória partindo do caos dos mangues até a construção de nossa cidade onde se materializa nosso sonho de humanidade:



DO LODO E DA LAMA

Ao poeta Carlos Pena Filho


A linha fina da água

a flor no sal, o movimento

dos líquidos, entre as pernas:

a lama, o lodo amarelo e triste

raquíticos desejos, emergem:

conchas do mar, as tranças dos teus cabelos

sobre o movimento das marés:

luares gordos encharcam teus seios de guizos

nas redes, seres de olhos de vidro

te espreitam noite e dia:

morrer, mesmo sem ter vivido

na lâmina desses dias, teu convívio.



A NÁUSEA E O PÂNTANO

À Ilha de Deus, Pina, Recife, Pernambuco


Na água espessa nave, pele e osso

se fazia? Ninguém a via

aquática flor, no lodo

caranguejos, e de conchas se vestia

com as mãos, até pescoço

no líquido encarnado e viscoso

manguezal, de brotos se nutria:

fendas no lamaçal, tremia de gozo

a tarde nas mãos ardia

o viço do seu vestido novo

no movimento das marés

o vigor de suas pernas transparecia

estranha paisagem, finas e vadias

neste pão aquoso.



“A EDUCAÇÃO PELA PEDRA”

A João Cabral de Melo Neto


Dentro dos pátios das escolas

musgos, cansados e tristes

corroem os bustos

dos tempos que teimam não passar.

Longe dos muros

seres de ópio e vinho

lustram os vernizes das estantes:

os quadros negros

no giz que se esvai no tempo

a minguar, os instantes

nas praças, assistimos

passar, nas telas e nas redes

como fosse virtual.



COTIDIANO DOIS


A mulher derretia

no fogão

o bucho cozinhava. Ele bebia

com limão, esterilizava

a espera

dos dias, enquanto ela derretia

ele se banhava

na solidão

morreram, cheios:

engasgados

na gordura, corações

fritavam devagar

enquanto o fogo ardia.



POEMA WEB


Procuro-me

no google encontro

quem sou, realmente?

Esta grafia perpassada

pelo tempo, salvo na rede

nos arquivos

nas nuvens

nas teias

das conexões

por um fio, permaneço

sem chegar, a lugar nenhum

dado às digitais

além do corpo

lá fora. Nada além

nesta solidão, desfio.



CÓDIGO DE BARRAS


A cidade

não é o cinza, só:

- onde andará o azul das manhãs?

Que perdemos, na multidão:

as esquálidas barras do dia nos fascinam

com seus códigos nos falam

das vitrines:

- penso, logo existimos

nos logaritmos

dos códigos de barras:

o alimento das almas puras

comprando, a nova calça jeans

dos desejos que não são.

Andando pelas ruas

não lembro do amor, guardado

que prometi seu, só

os esquálidos códigos de barras

nos atravessam

e nos esquecemos, nesta multidão:

de luzes, nesta cidade ocre,

pulsamos, com seus luminosos:

as publicidades, nos falam

das pluralidades

que seremos um dia.


*Estes poemas fazem parte do E-book: À Luz de um Sol Impuro – FS Editora - 2019

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