AS OSTRAS E O ICEBERG

Depois de algum tempo sem conseguir escrever nenhuma linha, de súbito uma história se desenhou em sua mente.

- Poucos veem o iceberg. Mas ele sobrevive no mormaço da cidade, sobre as águas do rio desloca-se anonimamente. Por vezes estaciona em frente aos gabinetes; as ruas fervem as contas dos dias, poucos o enxergam, mas não acreditam no que veem.

O iceberg tranquilamente observa os sobrados e os casarões antigos que guardam os rastros de um reinado de açúcar e mel; papéis e laptops são trancafiados em seus arquivos buscando calor e sombra. Aqueles poucos, que têm permissão para entrar em suas salas saem lambuzados de teias de aranha e cifrões de dinheiro.

A Guarda Palaciana usa casaco de pele de urso e toma chá de erva cidreira na esperança de requentar o sangue - todos tremem, pressentem, mas ainda não enxergam o iceberg à deriva procurando um porto seguro para degelar seus filhos: focinhos finos, pernas e dedos longos - se alimentam principalmente de papel velho e tinta de carimbo, de longe rastreiam sujeira e mofo.

O Iceberg gestante busca uma das pontes da cidade antiga. Sabe que ao menos uma fora construída para guardar os passos da princesa que ligava os dois continentes, viabilizando desta forma o transporte de madeira, mel, e pele de índios e negros, desidratada à temperatura de quarenta graus.

Em seu ventre seus meninos rastreiam relatos, delações, relatórios, balanços de empresas, registros de imóveis e prestação de contas do TCU, sob a ótica de uma balança mágica. Garfos e facas na mão, tocam e dançam esperando a hora do almoço...

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(PAUSA PARA O ALMOÇO)

- Num dia ainda jogo essa merda toda no ventilador. - Afirmou determinado.

Em seu trabalho numa estatal - entre listas e bilhetinhos, enviados sob sigilo absoluto - viu entre seus dedos o estado inchar e cifras engordar as contas bancárias de alguns.

- Nas ruas, as pessoas - distantes dos shoppings – invadiam lojas e saqueavam as vitrines, despindo os manequins. As portas de vidros eram quebradas e os mostruários consumidos, como fast-food. Elas também não enxergavam o iceberg grávido ancorado no rio que corta a cidade.

Ele fazia anotações para seus contos nos intervalos do horário de trabalho, aproveitando o tédio da repartição. Assim, expelia seu veneno nas teclas do computador. Numa pasta, guardava o material. Pensava em publicar um livro – “um dia ainda jogo toda esta merda no ventilador” – repetia a cada linha construída. “Mas tenho que agir com sutileza” - raciocinava. Aproveitou o pouco dinheiro que ainda lhe sobrava do mês, para investir num curso de escrita criativa.

- Com os focinhos finos, pernas e dedos longos, os caras invadiram a sala, sorrateiramente desvendaram senhas, abriram arquivos e também o bloco de notas do laptop. No birô, a almofada do carimbo ainda cheirava a tinta fresca, “por pouco não o encontramos aqui” – conversaram em voz baixa.

Numa folha, dentro do cesto de lixo, viram seus nomes rabiscados. “Esse cara nos entregou, mas, que merda é esta?” - se perguntaram. Viviam semicongelados dentro da barriga de sua mãe longe do olhar do mundo. “Sabia que não podíamos confiar neste cara.” - retrucou um deles. “Temos que dar um jeito nisto, não podemos ser descobertos agora.” – argumentou o outro, esfregando as mãos.

Naquele ponto da investigação - trabalho que desempenhavam com o máximo de silêncio e zelo - não podiam ser descobertos de modo algum. Primavam pela discrição e o resultado, nunca deixaram de apontar um suspeito, descobrir as tramas, negociatas, laranjas, empresas fantasmas, malas de dinheiro e documentos falsos.

Estavam aturdidos com a nova tecnologia (nuvens, arquivos, senhas, whatsapp, e-mails...), tinham predileção por papel e tinta, rastreavam “coisas erradas” pelo cheiro da folha e o esmaecimento da cor da tinta. Porém nada impedia a progressão do trabalho, as investigações.

Batia zero grau no termômetro da sala; lá traçavam um planejamento estratégico: “copiaremos seu crachá: número de matrícula, cpf e seção onde trabalha, tudo está lá. O resto é fichinha: conta bancária, endereço e blá, blá, blá, é fácil” – afirmou o primeiro. “É importante grampear o celular também”, ponderou o outro. “É isso aí bicho, nada como trabalhar em equipe”, retrucou o primeiro. “Câmeras, dentro e fora do apartamento” – pensaram em voz alta. E seguiram.

Ele sentou para mais um dia de trabalho, antes de sair do apartamento tomou seus remédios: antiácido, anti-hipertensivo, vitamina C. “Este cara funga o dia todo”, através de uma luneta eles começaram a observá-lo. “Este é um indício de que não está feliz com aquilo que faz, problemas respiratórios indicam isto, anota aí na cadernetinha.” – retrucou o outro.

Dentro do apartamento, aproveitando o horário de trabalho do investigado, montaram um arsenal de monitoramento: câmeras e microfones ultrassensíveis, rastreador de digitais, termômetros, leitor de íris, medidores de temperatura nos assentos das cadeiras. “Tudo pronto, agora é só esperar, à noite teremos grandes novidades”, pensaram em voz alta.

A porta do apartamento abriu-se, a escuridão do local sumiu com o acenar da lâmpada da sala, colocou a bolsa e o paletó sobre a cadeira, uma pasta marrom sobre a mesa; fotos e alguns papéis se derramaram dela. Alguns minutos depois saiu do banheiro enrolado numa toalha. Eles não tinham a informação do que aconteceu no banheiro, não gostavam da nudez masculina. Viram o preparo da comida na cozinha; lavou os pratos, apagou a lâmpada e foi dormir.

- “Ontem, não aconteceu nada de diferente, vamos rastreá-lo hoje novamente até descobrirmos tudo sobre este cara”, conversaram entre si, quase salivando. Assim se passaram muitas noites; era só silêncio e mistério, nenhum registro nas câmeras nem nos sensores.

- “Muito estranho isto, algo está errado”, o primeiro falou para o segundo.

- “Hei pera aí, olha! Quem é este cara? O que é que você está escrevendo aí?”. Com as armas nas mãos, voltaram-se contra o escritor.

Agora uma página cai no chão manchada de sangue e pólvora.

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