AS FACES DO AZUL NA POESIA DE CARLOS PENA FILHO

Atualizado: 11 de Mar de 2019

No “blues” – estilo musical criado pelos negros que trabalhavam como escravos nas fazendas dos Estados Unidos - a “blue note” marca e define como gênero essas canções - advindas dos cânticos de saudade da terra e da amada que ficaram no além-mar. Além de dar o compasso do andamento do gênero musical, a “blue notes” cria o ambiente nostálgico e triste dessas canções.

No caso da poesia, conseguimos identificar estes vestígios em alguns poetas notadamente urbanos; a solidão dos grandes centros tecida na fragilidade das relações humanas - o vazio e a solidão - impostas por um modo de vida decantados no ritmo sincopado de seus versos.

Na poesia do poeta do azul, Carlos Pena Filho, podemos identificar as várias faces desta solidão e de seus ritmos, como fosse música em nossos ouvidos: a “blue note” poética que serpenteia o nosso cotidiano. Escolhi alguns sonetos tentando mostrar estas faces:


FAZENDA NOVA*


É como se fossem ruínas,

mas não de muros ou casas.

São ruínas de terra antiga

que o tempo estraga.

Vistas de longe, essas pedras

de irregulares tamanhos

são lembranças renascidas

de abandonados rebanhos.

Mas, quando vistas de perto,

a ideia que a gente faz

é a de que aquilo é somente

lavoura de Satanás.

Apenas o sol se move

nessa paisagem sem bois,

sem cabras e sem ovelhas,

sem antes e sem depois.

Ainda mais duas coisas

pode esse campo lembrar:

um cemitério sem corpos

ou um leito de mar, sem mar.


SONETO PARA O DEDO ANULAR*


Inúteis as ausências prometidas

e os cães de lodo resguardando a praça,

seremos sempre estátuas de fumaça

plantadas sobre o chão das avenidas.

Eternamente a olhar pra trás pendidos

como galgos do céu ali tombados,

murmuraremos pedras e recados

que nunca chegarão para os ouvidos.

Viveremos de avanço e retrocesso

e, quando nos sentirmos desmanchados

dentro de nossos corpos pelo excesso,

comporemos silêncios entre as frias

manhãs, onde veremos espantados

que inventamos um tempo além dos dias.


SONETO*


O quanto perco em luz conquisto em sombra

e é de recusa ao sol que me sustento.

Às estrelas prefiro o que se esconde

nos crepúsculos graves dos conventos.

Humildemente envolvo-me na sombra

que veste, à noite, os cegos monumentos

isolados nas praças esquecidas

e vazios de luz e movimento.

Não sei se entendes: em teus olhos nasce

a noite côncava e profunda, enquanto

clara manhã revive em tua face.

Daí amar teus olhos mais que o corpo

com esse escuro e amargo desespero

com que haverei de amar depois de morto.

*Poemas extraídos do Livro Geral.

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