AS AVENTURAS DE ZÉ - O JACARÉ.

As águas estavam agitadas no calor do marrom dos sedimentos, que se desgarravam do peso de sua pena - a de viver no fundo, só ver a luz quando há um corre-corre, uma treta chacoalhar os dias pesados, como os de agora, aliás, faz tempo.

Lá na superfície, não tão raso assim, havia um rebuliço, um lá e cá danado, ninguém se entendia, discussões, voltas e meia sobre o corpo, parecia tudo muito agitado. Corria uma informação no pedaço, que Zé, o jacaré mais antenado da região havia sido preso pela Polícia Federal num aeroporto, próximo daquele local.

- Como assim, preso pela Polícia Federal, e num aeroporto? Será que algum pescador, desses bem safado, o havia sequestrado, tentando transportá-lo para outro país, escondido dentro de uma caixa e esta fora barrada pela vigilância sanitária? Se foi isso, ainda bem, ele retornará o mais rápido possível para sua casa – retrucou Jorge, seu amigo mais chegado.

Mas a confusão continuava tirando a paz daquele lugar. Ali reinava a tranquilidade total, havia alimento para todos: areia morna para se tomar aquele banho de sol, mato alto que dava uma certa privacidade. O tempo parecia não querer passar. Dalí ninguém pensava em sair.

Até que veio a tal informação de uma prisão, logo a de Zé, cara legal. Ele gostava de se reunir, contar histórias e falar de suas ideias de como proteger aquele lugar. Falava daquilo que estava acontecendo em outros lugares: aterramento de rios, fogo e derrubada das árvores, caça ilegal, lama dos dejetos que saiam das casas dos humanos e de como tudo isso afeta a qualidade da água. Essa era sua preocupação maior, continuava Jorge a falar com os demais, relembrando as façanhas do amigo.

A boa conversa foi interrompida quando Manoel chega, cansado, língua arrastando na areia, suado, com o coração nas patas, falando coisas que ninguém conseguia decifrar. Ele era uma espécie de leva e traz daquela comunidade, tudo que acontecia e perguntassem, ele sabia. Tinha o apelido de Telinha, tudo passava por ele.

De repente todos ficaram parados, olhos atônitos, queixos caídos, se perguntando: o que é que vem agora? Até que alguém, impaciente, interrompe aquele silêncio infinito: - E aí Telinha, o que vem de lá, diz aí bicho! Ali todos eram só ouvidos.

Quando o Telinha enfim solta uma informação quentinha sobre a tal prisão de Zé.

- Ele foi preso porque estava tentando roubar o container onde estavam as vacinas, essas da tal COVID-19.

- Ele enlouqueceu foi? Para que ele quer esse negócio? Aliás, não acredito! Roubar é um negócio muito ruim, não costumamos fazer isso, mesmo quando alguém consegue um pedaço maior de carne, ninguém bota a pata, tasca um pedaço. Isto é uma mentira deslavada! bradou Jorge, irado.

Telinha, continuou no seu relato:

- Ele contou ao delegado que havia tentado cometer o delito, porque tinha ouvido de pescadores que a tal vacina ia transformar os humanos em jacaré e como ele sabe que há muitos humanos, não ia sobrar nem rio, nem carne para todo o mundo, seria o caos! Como ele se acha um guardião de nossa comunidade, tinha que cometer aquele ato. Sabia que era insano, mas justo, perante os fatos e contra estes, não há argumento.

- Incrível como tem gente falando besteira neste país. Você é um jacaré, não um burro! Não ligue, isso é conversa de pescador! Preste atenção seu caba! - retrucou o delegado.

- Agora ele já está vindo, vão deixá-lo aqui, são e salvo. – continuou Telinha.

Naquela comunidade a felicidade tornou a reinar, todos sabendo que nem tudo pode virar jacaré. Nem que a vaca tussa!


* Imagem: pleno.news




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