ARTE BOA, ARTE RUIM – ISTO EXISTE?

Atualizado: 11 de Mar de 2019

Existe uma discussão na sociedade e nos meios literários, sobre a qualidade da arte que consumimos hoje. Tal movimento distingue-se em dois blocos: um atribui a força do mercado como formador de uma arte dirigida para o consumo de massa, interferindo drasticamente em seu conteúdo, prejudicando desta forma a sua qualidade. O outro defende que consumimos uma arte decadente, resultante de um mundo também decadente e que, neste contexto, pesam vários fatores que determinam a sua produção.

Colocando-se de lado questões inerentes à qualidade e ao conteúdo, duas artes, então, permeiam nosso cotidiano alimentando e nos transformando através de sua veiculação nas mídias.

Essas artes, conceitualmente geradas para atender nichos de mercado não se cruzam nem se permeiam ao final de seu trajeto, provocando ainda mais discriminações - o que impede um estudo aprofundado sobre o tema - denegrindo dessa forma o conceito daquilo que chamamos de arte.

O poeta Ferreira Gullar em seu livro: “Sobre arte. Sobre poesia - (Uma luz no chão)”, nos diz que “A produção da arte como acontecimentos ou conceitos, se podem ser entendidas como resultado da procura estética, podem também ser vistas como resultado do conflito subjacente entre arte como expressão e a arte como mercadoria”. Opondo-se de certa forma ao conceito ortodoxo marxista sobre arte, o qual se fundamenta na questão em que a produção artística representa os interesses e a visão de mundo da classe dominante de um modo mais ou menos preciso.

O filósofo Herbert Marcuse, aponta para além deste modelo estético, quando afirma que a arte se sobrepõe a este papel político, porque ultrapassa as fronteiras que a cerceia: “Na sua autonomia a arte, não só contesta essas relações sociais existentes como, ao mesmo tempo, as transcende. Deste modo, a arte subverte a consciência dominante, a experiência ordinária”.

A criação artística, mesmo sendo produto de um tempo sócio/histórico, acredito, escapa das rédeas deste processo, alcançando sua autonomia através de um diálogo permanente que faz com as relações de mercado, produção e as questões humanitárias. Questões estas que permeiam o homem na sua escalada evolutiva, através dos questionamentos vivenciados em seu meio social.

Desta maneira a produção artística, posto que é fruto da cultura vivenciada pelos grupos sociais e que funciona como meio de expressão, nos aponta para outros questionamentos - qual uma bússola a indicar um caminho - a qualidade de vida destes grupos: suas relações de produção, seu grau de conhecimento tecnológico e também de erudição.

Conforme o escritor Raimundo Carrero: “o conceito estético grego morreu, já não existe, hoje extraímos a arte da história da vida das pessoas simples, das ruas descalçadas”.

Arte boa ou arte ruim não existe - tudo é arte - porque é o meio de expressão dos grupos que interagem na sociedade. Sendo as sociedades desiguais ou não, sempre estas gerarão diferentes tipos de arte, mas aqui não há sentido de julgamento de valor - que seria uma discussão sobre estética - levamos em conta o fazer artístico, laboral, como forma de expressão que marca um povo através dos tempos. Conforme a letra da música: “Ela é dançarina”, de Chico Buarque - “eu sou funcionário/ela é dançarina/quando pego o ponto/ela termina/Ou: quando abro o guichê/é quando ela baixa a cortina”.

Portanto, os produtos derivados da cultura de um grupo ou de um povo, perpassam o sentido de beleza estética, mas se fundem com os processos mentais e de cognição oriundos de um modelo econômico de produção. Simplesmente vivemos, produzimos e somos as vítimas de tudo aquilo que nos rodeia e nos faz pensar.

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