ALGUMAS NOITES EM CLARO - CAÇANDO METÁFORAS

No célebre romance Madame Bovary, Gustave Flaubert nos instiga com a seguinte frase: “O mais medíocre dos libertinos sonha com sultanas; cada escrivão leva em si as ruínas de um poeta”. Penso eu que ele sem sombra de dúvida apontava para a beleza de um texto: o lirismo encravado em sua carne e a estética de suas linhas - atributos esses que só um grande poeta ou aqueles escritores que gostam de poesia podem tecer. Porém, o ato de escrever e inventar novas fórmulas é nódoa no currículo de muitos, poetas ou não.

No prefácio do livro “Noite em Clara, um romance (e uma mulher) em fragmentos”, O escritor Raimundo Carrero atenta para o fato: “lirismo é uma tendência literária que tende a desaparecer completamente, sobretudo num País em que se confunde lirismo com romantismo”.

A pressa do nosso cotidiano, impregnada de bits e giga, rejeita as fórmulas rebuscadas submetendo tudo e todos às técnicas do mundo cibernético – concisão e redução do caráter multifacetário das palavras, principalmente. A redução do signo é a marca deste tempo, que nos diga Martin Heidegger. O romantismo barato invade as prateleiras - livrarias e delicatéssens saboreiam o doce desta era.

Sidney Nicéas subverte a lógica das fórmulas preparadas daquilo que é romance e o que é poesia jogando mais lenha nesta fogueira. Ele confirma aquilo que Flaubert e Carrero apontam, mas, coloca uma pitadinha a mais de tempero: diminuindo a quantidade de linhas, reduzindo o tamanho do texto e apostando no recheio da massa - entre aquilo que é o fazer poético e aquilo que é do romance, assim arma sua tenda e colhe frutos neste terreno virgem.

É aí onde Clara, personagem do livro, retoma sua qualidade humana: recebe de volta sua virgindade usurpada salvando-se a si mesma nas curtas histórias contadas neste livro, que se entremeiam, tecendo uma teia impossível de se escapar. O mundo de Clara é exposto, expondo todos nós, numa viagem lisérgica onde consciência e não consciência se fundem trazendo à tona um novo mundo, ressuscitando as várias faces da palavra. O mundo semiótico de Clara é literatura que respeita seus anjos e demônios impregnados em sua face.

O “Noite em Clara, um romance (e uma mulher) em fragmentos”, nasce de dois pequenos textos: “O mundo de Clara” e “Quedante” jogados na internet intencionalmente pelo autor, que descobre a partir daí a fórmula deste seu novo romance.

O livro se serve do útero quente das fibras óticas para viver sua fase embrionária, mas, sonha com as nuvens, quer um vir a ser apesar do mundo gelado e hostil que o espera, porém, toma corpo e segue seu caminho; a gramatura do papel ainda virgem é seu destino, seu estágio final.

A carne de Clara se faz casa e teto deste “ser” de papel e tinta e a partir daí segue para o mundo de peito aberto. A técnica neste caso não subverte as qualidades do texto, mas, aponta um novo caminho onde resplandece as qualidades do autor libertando-o da mesmice destes tempos que Carrero aponta. Que Clara receba nossos olhos dissecando seu coração e mente, além de sua forma e cor.

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