A POESIA SEMPRE FOI PUNK – OU DE COMO RESISTE AO TEMPO

A história da evolução humana pode ser contada também através da história da evolução da comunicação entre os homens. Várias mudanças, inclusive de origem orgânica, concorreram para apontar novos caminhos no desenvolvimento do homem e de sua formação cultural, ajudando-o a construir seu processo civilizatório.

Este processo começa quando passa a utilizar gestos e grunhidos como meios de comunicação, na tentativa de ser entendido pelo seu grupo. Para alguns estudiosos, o teatro e a poesia nascem neste momento. Neste instante da história, a oralidade é o meio de comunicação utilizado. O segundo passo acontece quando o homem descobre a palavra e consequentemente a escrita.

Atualmente, devido ao desenvolvimento tecnológico da informação, que serve como suporte para a economia de mercado, onde se requer a rapidez constante na troca de informação, o sentido da visão passa a desempenhar um papel importante para a sobrevivência do homem nesta sociedade altamente competitiva, onde a rapidez dos acontecimentos ocorrem na velocidade da internet, onde todos os olhos estão depositados nas telas.

A quantidade atual de conteúdos na rede impõe ao homem moderno um novo modo de leitura atrelada a velocidade dos kbytes e aos acontecimentos do mundo globalizado, onde os olhos e o cérebro reagem na medida em que vão penetrando nos hipertextos oferecidos na rede mundial.

Os hipertextos são conteúdos que servem como base de pesquisa para todos os usuários. Esses textos são links que levam o leitor a uma sucessão de conteúdo, aumentando de forma extraordinária a quantidade de informações, como se fossem desdobramentos do mesmo assunto.

Quebrando a rigidez do modo de leitura formal, o hipertexto nos lembra, de certa forma, o tipo de linguagem que a literatura artística e principalmente a poesia utilizam como forma de expressão - a linguagem simbólica - como recurso para sair do coloquial para alcançar outra plataforma de assimilação da realidade.

Esta ferramenta serve para quebrar a rigidez do pensamento, imposto pela palavra e de sua contextualização linear, de sentido único, para uma outra forma de pensamento - ampliando a cognição através da descoberta de novos conteúdos, através de cenários menos rígidos, utilizando-se as velhas palavras habituais.

A poesia tem a capacidade de transportar o leitor de uma realidade à outra, utilizando ferramentas próprias como: as metáforas e outras figuras de linguagem, além de sua forma técnica de escrita, que abrem os caminhos necessários para percepções do real jamais imaginadas, promovendo desta forma novos conceitos e conteúdos, utilizando como matéria-prima palavras usuais.

Este fato nos mostra o real papel da internet e da literatura no mundo atual: o de conduzir o leitor para um universo cada vez maior.

Como exemplo, podemos utilizar um fragmento do poema “TECENDO A MANHÔ de João Cabral Melo Neto: “Um galo sozinho não tece uma manhã:/ele precisará sempre de outros galos./De um que apanhe esse grito que ele/e o lance a outro; de um outro galo/que apanhe o grito que um galo antes/e o lance a outro; e de outros galos/que com muitos outros galos se cruzem/os fios de sol de seus gritos de galo,/para que a manhã, desde uma teia tênue,/se vá tecendo, entre todos os galos.../. Assim como as páginas na tela se abrem para o amanhã.

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