1964

POR FERREIRA GULLAR

Do livro: Dentro da noite veloz



MAIO DE 1964



Na leiteria a tarde se repete

em iogurtes, coalhadas, copos

de leite

e no espelho meu rosto. São

quatro horas da tarde, em maio.


Tenho 33 anos e uma gastrite. Amo

a vida

que é cheia de crianças, de flores

e mulheres, a vida,

esse direito de estar no mundo,

ter dois pés e mãos, uma cara

e a fome de tudo, a esperança.

Esse direito de todos

que nenhum ato

institucional ou constitucional

pode cassar ou legar.


Mas quantos amigos presos!

Quantos em cárceres escuros

onde a tarde fede a urina e terror.

Há muitas famílias sem rumo esta tarde

nos subúrbios de ferro gás

onde brinca irremida a infância da classe operária.


Estou aqui. O espelho

não guardará a marca deste rosto,

se simplesmente saio do lugar

ou se morro

se me matam.


Estou aqui e não estarei, um dia,

em parte alguma.

Que importa, pois?

A luta comum me acende o sangue

e me bate no peito

como o coice de uma lembrança.





AGOSTO 1964


Entre lojas de flores e de sapatos, bares,

mercados e butiques,

viajo

num ônibus Estrada de Ferro-Leblon.

Volto do trabalho, a noite em meio,

fatigado de mentiras.


O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,

relógios de lilases, concretismo,

neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,

que a vida

eu a compro à vista aos donos do mundo

ao peso dos impostos, o verso sufoca,

poesia agora responde a inquérito policial-militar.


Digo adeus à ilusão

mas não ao mundo. Mas não à vida,

meu reduto e meu reino.

Do salário injusto,

da punição injusta,

da humilhação, da tortura,

Do terror,

retiramos algo e com ele construímos um artefato


um poema

uma bandeira.


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